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Bullying

abr 27 Frente Parlamentar Mista de Combate ao Bullying é instalada na Câmara dos Deputados

A Câmara dos Deputados instalou, hoje (27), a Frente Parlamentar Mista de Combate ao Bullying e outras Formas de Violência em parceria com a Abrace Programas Preventivos. Criada e presidida pelo deputado federal Roberto de Lucena (PV-SP), a intenção é desenvolver um trabalho conjunto entre pais, professores, especialistas e legisladores para disseminar a cultura de paz a começar do ambiente escolar.

“Os reflexos do jogo Baleia Azul e da série 13 razões, da Netflix, demonstram que nós precisamos lançar um olhar de mais atenção para o que está acontecendo no universo da criança e do adolescente. Esta frente tem papel fundamental na identificação de propostas legislativas que tenham a pretensão de levantar muros de proteção, como também de mobilização do Parlamento para provocar o Executivo, propondo políticas públicas de prevenção em forma de campanhas, além de buscar diálogo com a sociedade, com o Ministério Público, com o Judiciário, entre outras instituições”, defendeu Lucena.

O parlamentar, que criou e presidiu a mesma frente na legislatura passada, lembrou que a atuação da frente foi muito importante na aprovação da lei de combate ao Bullying (Lei nº 13.185). A nova norma caracteriza claramente as situações de agressão física, psicológica e moral que podem ser consideradas bullying e estabelece regras para definir casos de intimidação realizados por meio da internet.

Durante o evento, foi realizado o seminário “Bullying: da urgência à oportunidade formativa”. O diretor da Abrace Programas Preventivos, Benjamin Horta, explicou que bullying é um conjunto de ações agressivas, intencionais e repetitivas, adotados por um ou mais alunos contra outros alunos. “O aluno está sofrendo bullying quando é exposto a ações negativas de forma repetitiva e apresenta nesta dinâmica dificuldades de se defender”, disse.

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Benjamim Horta – diretor da Abrace – Programas Preventivos, instituição responsável pelas ações de combate ao bullying junto à Frente Parlamentar Mista de Combate ao Bullying e Outras Violências.

Já a professora do Departamento de Psicologia da UFPR), Dra. Lis Soboll, afirmou que a sociedade hoje está centrada nos valores do “reino do dinheiro” onde o trabalho, consumo e tecnologia são fontes de identidade e que há uma crise na relação com o outro. “A consequência são crianças e jovens órfãos de pais ricos e com a sua identidade fragmentada. É uma crise de identidade extremamente danosa”, disse Soboll.

Uma ferramenta virtual colaborativa será disponibilizada para traçar ações e disseminar boas práticas, buscando fortalecer parcerias e dar apoio direto aos profissionais da área.

Sobre o Bullying no Brasil

Pesquisa realizada pelas Nações Unidas mostra que quase metade (43%) das crianças e jovens brasileiras já sofreu bullying por razões como aparência física, gênero, orientação sexual, etnia ou país de origem. A taxa é semelhante a outros países da região: Argentina (47,8%), Chile (33,2%), Uruguai (36,7%) e Colômbia (43,5%). Em países desenvolvidos, a taxa também gira em torno de 40% a 50%, como é o caso de Alemanha (35,7%), Noruega (40,4%) e Espanha (39,8%). O levantamento foi realizado no ano passado com 100 mil crianças e jovens de 18 países.

mar 24 Pesquisa da ONU mostra que metade das crianças e jovens do mundo já sofreu bullying.

Fonte: ONUBR

Pesquisa realizada pelas Nações Unidas no ano passado com 100 mil crianças e jovens de 18 países mostrou que, em média, metade deles sofreu algum tipo de bullying por razões como aparência física, gênero, orientação sexual, etnia ou país de origem.

No Brasil, esse percentual é de 43%, taxa semelhante a outros países da região: Argentina (47,8%), Chile (33,2%), Uruguai (36,7%) e Colômbia (43,5%).

Um terço dos entrevistados disse acreditar que sofrer bullying é normal e, por isso, não contou a ninguém. Foto: Shutterstock / CC

Em média, metade das crianças e jovens no mundo dizem ter sofrido bullying. Foto: Shutterstock / CC

Pesquisa realizada pelas Nações Unidas no ano passado com 100 mil crianças e jovens de 18 países mostrou que, em média, metade deles sofreu algum tipo de bullying por razões como aparência física, gênero, orientação sexual, etnia ou país de origem.

Os números constam no relatório “Pondo fim à tormenta: combatendo o bullying do jardim de infância ao ciberespaço”, realizado pelo representante do secretário-geral da ONU para o combate à violência contra a criança e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

No Brasil, esse percentual é de 43%, taxa semelhante a outros países da região: Argentina (47,8%), Chile (33,2%), Uruguai (36,7%) e Colômbia (43,5%). Em países desenvolvidos, a taxa também gira em torno de 40% a 50%, como é o caso de Alemanha (35,7%), Noruega (40,4%) e Espanha (39,8%).

“O bullying é uma experiência danosa, apesar de evitável, para muitas crianças no mundo. Não importa como seja definida, as pesquisas internacionais recentes com crianças relatam uma taxa entre 29% e 46% de crianças alvo de bullying nos países estudados”, afirmou o relatório.

Segundo o documento, evidências mostram que tanto as vítimas como os perpetuadores desse tipo de violência na infância sofrem em termos de desenvolvimento pessoal, educação e saúde, com efeitos negativos persistindo na vida adulta.

“Quando as crianças são afetadas pelo bullying, elas não conseguem tirar vantagens das oportunidades de desenvolvimento aberta a elas nas comunidades e escolas nas quais vivem”, afirmou o relatório.

O estudo mostrou que o bullying é um fenômeno complexo que toma múltiplas formas, e é experimentado de diversas formas no mundo. Normalmente definido como provocação, exclusão ou violência física, em torno de um em cada três crianças em idade escolar no mundo informaram ter passado por alguma experiência envolvendo bullying ao menos uma vez nos meses precedentes.

O fenômeno também é mais comum entre crianças de idade escolar em países mais pobres, e na maior parte dos países os meninos e crianças mais jovens enfrentam o problema mais frequentemente.

O UNICEF está trabalhando com governos, sociedade civil e setor privado para estabelecer mecanismos para que as crianças possam reportar casos de violência, como atendimento por telefone, plataformas online e aplicativos móveis. Isso está ocorrendo em diversos países, entre eles Albânia, Algéria, Brasil, Hungria, Quênia, Madagascar e Sérvia.

No Brasil, o UNICEF, em colaboração com o governo federal e a ONG CEDECA e a empresa IlhaSoft, lançaram a plataforma “Proteja Brasil” em 2014, por meio do qual é possível reportar violência e abusos para as autoridades.

UNESCO organiza simpósio sobre o tema

Diante de seu compromisso com a construção de uma educação inclusiva e de qualidade, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e o Instituto de Prevenção à Violência Escolar da Universidade de Mulheres Ewha organizam na semana que vem (17 a 19) em Seul, na Coreia do Sul, o simpósio internacional “Violência Escolar e Bullying: das Evidências à Ação”.

O evento deve reunir cerca de 250 pessoas de 75 países, incluindo professores, estudantes, ministros e vice-ministros da Educação, autoridades políticas, oficiais da ONU e de agências bilaterais, além de outros parceiros e representantes da sociedade civil, do setor privado e das comunidades escolares.

“Enquanto muitos estudantes aprendem em ambientes seguros e estimulantes, outros são expostos à violência e ao bullying, o que infringe seu direito fundamental à educação”, disse Soo Hyang Choi, diretor da divisão para inclusão, paz e desenvolvimento sustentável da UNESCO.

“O simpósio permite que a comunidade internacional elabore novas ações para responder à violência escolar e ao bullying; e representa uma oportunidade de implementar as recomendações do relatório do secretário-geral da ONU sobre a proteção de crianças, apresentadas na Assembleia Geral das Nações Unidas em outubro de 2016”, declarou.

O simpósio internacional visa a ampliar a liderança da UNESCO no combate à violência escolar baseada em gênero, incluindo violência baseada em orientação sexual e identidade de gênero e expressão.

O evento também ocorre depois do lançamento de dois importantes relatórios em 2016, um sobre a resposta do setor educacional à violência baseada em orientação sexual e identidade de gênero e expressão, e outro com um guia sobre como enfrentar a violência baseada em gênero nas escolas.

Um novo relatório global será lançado durante o simpósio, oferecendo dados atualizados sobre escopo, natureza e impacto da violência escolar e do bullying, e fornecendo diretrizes para o setor educacional para o planejamento e a implementação efetiva de respostas.

O simpósio internacional tornou-se possível com o financiamento da UNESCO e do Ministério da Educação da Coreia do Sul por meio da Fundação Nacional de Pesquisa da Coreia do Sul.

fev 11 Entrevista de Benjamim Horta para o Diarinho, de Santa Catarina.

Fonte: Diarinho www.diarinho.com.br

Pedagogo fala do problema que aterroriza pais e professores

 

As aulas estão recomeçando e com elas retorna um problema que, às vezes silencioso, afeta a autoestima e o desempenho escolar da alunada. Estamos falando de bullying. O termo surgiu na língua inglesa, bully, que significa tirano, brigão, valentão. Em Santa Catarina, 67% dos estudantes já sofreram bullying nas escolas. Existem muitas formas de praticar a intimidação que causa traumas: de forma silenciosa, excluindo determinada criança do grupo. Outras vezes, de forma violenta, machucando, rasgando a roupa, roubando o dinheiro ou o lanche. Pode ser também virtual, praticada nas redes sociais através da internet. Independente da forma, o diagnóstico é o mesmo: tanto quem pratica como quem sofre bullying precisa de ajuda. Para esclarecer as dúvidas d sobre o tema, a jornalista Franciele Marcon entrevistou Benjamim Horta, pedagogo e filósofo da Abrace Programas Preventivos, instituição que se propõe a ajudar as escolas e famílias a transformar os ambientes sociais. As fotos são de Mariana Vieira.

DIARINHO – As aulas começam esta semana na região. Um dos problemas que marcam crianças e jovens na atualidade é o que chamamos de bullying. O que pode ser feito pelos professores e pelas escolas para evitar?
Benjamim: Em primeiro lugar existe uma hipérbole a respeito do termo bullying. Muitos pensam ser bullying o que não é. E muitos pensam não ser, o que às vezes é. A gente precisa, em primeiro lugar, que as escolas e que os pais entendam de fato o que é bullying e que ele faz parte da psicodinâmica escolar. Onde existe escola, existe a possibilidade de acontecer o bullying. Ter consciência que acontece e, principalmente, que compromete não só a saúde, mas inclusive o processo de aprendizagem da criança, é importante. É preciso entender o que é bullying. Bullying são todos os comportamentos agressivos de um aluno contra o outro, de um grupo de alunos contra outro grupo de alunos, ou de um grupo contra um aluno só. O aluno que pratica o bullying contra o outro, tem a intenção de ferir, de humilhar. Lembrando que a questão de ser agressivo, não é só a agressividade física. A agressividade vai acontecer de várias formas: social, psicológica, material, física. O bullying é agressivo, é intencional e ele é repetitivo. Ele vai ser um ato recorrente. Não precisa ser todo dia e nem dentro de uma periodicidade específica, mas ele vai ser um ato frequente. Então é importante que se tenha consciência da seriedade e que, principalmente, aplique políticas de prevenção nas escolas. Outra questão importante é que a escola mantenha um contato com os pais e tenha um diálogo aberto sobre bullying. Porque, muitas vezes, um núcleo empurra para o outro, a família empurra pra escola, a escola culpa a família e na verdade precisamos abrir um diálogo para que um auxilie o outro.

DIARINHO – Qual a diferença do bullying para uma brincadeira normal de jovens? O que o caracteriza?
Benjamim: Bullying é uma forma de violência que vai acontecer nas escolas. Eu sempre digo o seguinte aos alunos: brincadeira é quando todos estão se divertindo. Quando alguns estão se divertindo as custas de outros, aí tem algo errado. Quando a gente faz as intervenções com os alunos, perguntamos ao agressor: “o que está acontecendo?”. Ele responde: “estava brincando”. Mas na verdade ele não estava brincando. Para ele, talvez, fosse até uma brincadeira de mau gosto, mas para quem está chorando e sendo agredido, não é. O que vai diferenciar bullying de brincadeira, a gente vai ter inclusive o que vamos chamar de tough play – brincadeira durona – entre amigos. Eles brincam se empurrando, mas não existe uma desigualdade de poder entre eles. Não há intenção de ferir um ao outro. Vai acontecer também no ambiente escolar, algumas formas de desentendimento e violências pontuais. São alunos que estão ali interagindo, na hora do esporte, na hora do trabalho, acontece alguma divergência, eles vão se ofender, mas isso não vai ser bullying. Confundir bullying com outras ações, dinâmicas das interações que acontecem nas escolas é muito fácil. O que vai diferenciar: brincadeira é quando está sendo promovida uma certa saúde no processo. Bullying é quando estão usando de perversidade.

DIARINHO – Há estudos que mensuram quantos alunos são atingidos por bullying nos colégios catarinenses?
Benjamim: O PeNse [Pesquisa Nacional de Saúde Escolar], em parceria com o IBGE e com o MEC, a cada dois anos faz uma pesquisa sobre a saúde na escola. Eles levantam diversas informações, como o nível de drogadição, violência familiar, até mesmo o desenvolvimento escolar. Dentro dessa pesquisa eles incluem a violência e o tema bullying. Segundo a pesquisa de 2015, a média do índice de bullying em Santa Catarina é de 67% – o que é altíssimo. A média brasileira, saiu uma pesquisa da ONU, que foi realizada em 18 países, é de 43%. [Porque em Santa Catarina está tão alto?] Olha, é uma pergunta que eu também me fiz, quando eu vi esse índice. Pode ser uma questão cultural, mas a gente ainda está analisando o porquê disso.

DIARINHO – Quais comportamentos devem chamar a atenção dos pais que podem ser indicativos de perseguições na escola?
Benjamim: A maioria dos alunos não têm coragem de contar que está sofrendo bullying. Eles têm medo de retaliação, têm medo que uma intervenção seja feita de forma errada e venha a piorar o problema. E porque eles têm um pouco de vergonha de relataram um problema que não conseguem resolver sozinhos. Tem outra questão que, às vezes, influencia muito esse fato de não contar, que é o ceticismo dos alunos com a ação dos adultos. Eles pensam que as nossas prioridades são outras e que não devem nos ocupar ou preocupar com questões que “parecem bobeiras”. Aprender a conviver é um dos principais aprendizados no ambiente escolar. Quando o aluno não conta, alguns outros comportamentos vão evidenciar a possibilidade de estar sofrendo ou praticando bullying. No caso de quem sofre, qualquer mudança habitual no comportamento: roupas rasgadas sem explicação, material danificado sem explicação, queda brusca no rendimento escolar, fobia escolar ou rejeição ao ambiente escolar, rejeição às atividades sociais da escola, até mesmo chegar com uma fome exagerada em casa. Muitas vezes, quem pratica bullying se beneficia da dinâmica do bullying tirando o lanche ou o dinheiro do lanche. [E os sintomas de quem pratica?] Indisciplina, toda a forma de louvor à violência. Todo aluno que evidencia a violência como forma de resolver conflitos; alunos que tendem a fazer uso de álcool ou outras substâncias, no caso dos adolescentes; desrespeito às autoridades; notas baixas – os alunos que praticam bullying não se dedicam aos estudos. Existe um mito de que os alunos que praticam bullying são inseguros. Isso é um mito. É ao contrário. Os estudos mostram que os alunos que praticam bullying são extremantes confiantes, têm uma ótima autoestima e prazer em dominar os outros. Precisamos entender que o aluno que sofre bullying precisa de ajuda, mas o que pratica também. Na sociedade brasileira temos a mania de superproteger quem sofre e de recriminar quem pratica. Obviamente, é um ato de injustiça e deve ser reparado. No entanto, a gente precisa entender que o ato de praticar bullying é um grito de desespero. É uma expectativa inconsciente que não foi suprida pelo ambiente social ou pelo ambiental familiar.

DIARINHO – Vários especialistas dizem que vivemos em uma sociedade sem limites. Essa falta de limite se evidencia no aumento dos casos de bullying?
Benjamim: Sim. A permissibilidade se tornou uma moeda de troca para compensar ausência. Nós vemos pais ausentes, famílias ausentes e para compensar isso, o pensamento é o seguinte: “não vou chamar a atenção do meu filho, porque eu passo tão pouco tempo com ele que não quero ser considerado chato”. Isso acaba influenciando o ambiente escolar e influencia até mesmo o papel dos educadores, que acabam se vendo na obrigação de não só transmitir o conhecimento, o conteúdo, mas promover outras formas de educação que cabem aos pais, ao ambiente familiar. Essa permissibilidade atual precisa ser revista. A expectativa da criança é de ser amada, de ter supridas suas necessidades básicas e ser direcionada de forma ética e de forma moral. De ser educada e corrigida, não de forma violenta, mas de forma didática.

DIARINHO – Que tipo de consequências a criança submetida a essa perseguição pode sofrer se o problema não for sanado?
Benjamim: Diversas consequências, inclusive não só em curto prazo, mas a médio e longo prazo também. Alguns estudos feitos no Canadá e nos Estados Unidos apontam que os alunos que sofreram bullying na adolescência se tornaram adultos com depressão, instabilidade emocional, problemas no trabalho, no relacionamento. O bullying vai afetar a curto, médio e longo prazo. Vai afetar não só quem sofre, mas quem pratica. Tem um estudo que mostra que 65% dos alunos que praticavam bullying na adolescência tiveram pelo menos uma passagem pela polícia até os 24 anos de idade. Os outros 35% tiveram três passagens pela polícia até os 24 anos. Isso em pesquisas feitas na Escandinávia. A violência é um ciclo, se não for quebrada na escola, na adolescência, ela vai perdurar e vai se estender à fase adulta.

DIARINHO – Com o advento da tecnologia e o acesso à internet, o bullying ganha proporções imediatas e graves pela facilidade com que viraliza nas redes sociais, com brincadeiras e fotos sendo envidas por WhatsApp ou Facebook. Qual seria a idade ideal para os pais liberarem o uso de celulares e computadores?
Benjamim: Algumas pesquisas mostram que a idade mínima é a partir dos sete anos, porque antes disso os tablets e celulares vão prejudicar o desenvolvimento psicomotor das crianças. Muitos pais entregam para crianças com três anos, quatro anos, para elas brincarem e isso está prejudicando o desenvolvimento psicomotor da criança. Eu acredito que, além disso, é importante ensinar às crianças o que chamamos de “ética digital”. A internet foi criada para o nosso benefício, mas o índice de cyber-bullying tem aumentado muito. Há três anos as nossas pesquisas apontavam 3, 4% de cyber-bullying nas escolas. Hoje estamos chegando a 12, 13%. Com o aumento do uso dos celulares, da tecnologia, obviamente, vai haver um aumento de cyber-bullying. Ensinar a ética digital para as crianças é muito importante. Eu sempre dou uma dica para os pais e para os alunos: quando postar alguma coisa na internet, quando disser algo para alguém através do celular, pense o seguinte: se eu estivesse frente a frente com essa pessoa, eu teria coragem de falar dessa forma ou de dizer a mesma frase? Essa desumanização tecnológica acaba prejudicando a nossa percepção do outro. Acaba nos desumanizando. Não estamos lidando com uma máquina, do outro lado existe gente de verdade que está lendo e vendo as nossas fotos. Precisamos pensar nas nossas ações e como essas ações vão comprometer o outro. Não só no ambiente físico, mas também no ambiente virtual.

DIARINHO – Dados mostram que 46,6% dos estudantes do último ano do ensino fundamental já se sentiram humilhados por colegas, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNse), realizada em 2015 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ou seja, quase metade dos alunos passou por isso. Como isso é encarado pelos educadores?
Benjamim: O bullying é um comportamento muito subjetivo. No dia a dia dos educadores, não é que eles sejam negligentes ou omissos, mas muitas vezes o bullying vai exigir uma atenção especial da parte deles para perceber realmente o que está acontecendo. Culpar a escola é muito fácil. Mas o que precisamos é auxiliar a escola a entender; a demanda é alta. Eles estão sobrecarregados pelo conteúdo que têm que ser aplicado durante o ano e, além disso, tem que ficar resolvendo conflitos que acontecem no dia a dia. A Abrace existe para isso, quando nós entramos nas escolas ajudamos e nos encarregamos de responder junto a escola pelo trabalho, pela prevenção e de forma combativa. Quando falamos sobre bullying, muitos alegam: “nós queremos tratar, nós até sabemos como, mas nós precisamos de ajuda”. Importante que os leitores do jornal entendam a importância de auxiliar a escola, auxiliar os educadores a prevenir o bullying, inclusive em um ambiente onde o aluno é mais influenciado em direção a violência, que é no ambiente familiar. Ainda existe essa questão de maquiar também. De falar: na minha escola não tem bullying. Ótimo, talvez não tenha, mas vamos trabalhar, vamos descobrir? Por que o bullying físico é evidente, você vê acontecendo, você vai lá e intervém. O bullying verbal, você ouve e vai lá e faz a intervenção. O social? O aluno que está sendo excluído de um grupo com a intenção de ser prejudicado por esse grupo e a gente não percebe.

DIARINHO – Qual a responsabilidade da escola sobre o cyber-bullying?
Benjamim: Eu sempre digo que na maioria dos casos norteamericanos de cyber-bullying, a gente tem pesquisado, e as cortes dizem que a partir do momento que aquilo que está acontecendo no ambiente virtual influencia no ambiente escolar, é sim responsabilidade da escola fazer uma intervenção e auxiliar os pais. Houve? Prejudicou o ambiente escolar? A escola tem autoridade dentro da legislação para fazer uma intervenção.

DIARINHO – A Lei nº 13.185 instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática. O que mudou a partir daí para as escolas?
Benjamim: A lei propõe que todas as instituições de ensino do território nacional apliquem projetos e programas de prevenção ao bullying. O MEC ainda está regulamentando e traçando uma meta para medição do que está sendo feito. A lei estipula que eles façam relatórios, anotem os casos e as intervenções. Eu recomendo que enquanto o MEC ainda está regulamentando isso, que eles já comecem a registrar todas as ações que estão sendo feitas. Todos os casos, todas as intervenções, capacitações. É importante que se entenda: existem ações específicas propostas na lei que devem ser seguidas. Muitas escolas têm feito só palestra, pensam que a leitura de um livro é suficiente, que uma palestra é suficiente, masnão. Tem que haver a capacitação dos educadores, tem que haver trabalho com os pais, trabalho sistematizado com os alunos, tem que haver uma intervenção nos casos de bullying. Porque se fizermos de forma incompleta, o resultado obviamente vai ser incompleto e inclusive levantar o tema e não tratar pode acabar piorando o comportamento dos alunos.

DIARINHO – O senhor também trata da prevenção de assédio moral na administração pública. Quais práticas são mais comuns e como evitá-las?
Benjamim: A grande questão é que o assédio moral, muitas vezes, se torna uma forma de gestão. Quando a gente fala sobre assédio moral descendente, vertical, do chefe para o subordinado, muitas vezes vamos pensar em uma dinâmica perversa. Porém, muitos que estão em cargos elevados, pensam que é uma dinâmica de empurrar o funcionário, pressionar o funcionário para que o trabalho seja feito. Mudar a consciência, conscientizar os gestores que não é assim que se estabelece uma relação, é fundamental. A gente vê em diversos setores, que essa ainda é uma forma de gestão. Eu pressiono porque eu estou sendo pressionado. É um dominó de ações e de assédios. O estresse, uma das principais consequências do assédio moral, vai acarretar diversas outras consequências, inclusive vai afetar o rendimento do próprio funcionário. Eu prefiro ter um funcionário feliz, que vai ter um bom rendimento, do que pressioná-lo para cumprir e um ano depois eu responder um processo ou ver o funcionário adoecido e pedindo auxílio doença. Tem um dado importante da UNB [Universidade de Brasília], de 2011, que mostra que 1,3 milhão trabalhadores do Brasil pedem auxílio doença anual por sintomas relacionados ao assédio moral. Isso acarreta um prejuízo de 3.5% no PIB. Isso mostra que é uma dinâmica patológica e precisa ser mudada.

jan 25 Bullying prejudica o desenvolvimento escolar

Segundo estudos, 20% dos estudantes já praticaram bullying no ambiente escolar. A violência atinge alunos, educadores e funcionários e desponta como uma forte causa para s dificuldades de concentração e desenvolvimento escolar.

Para as escolas que querem investir na solução para essa grave questão, o SINEP/MG e a Abrace Programas Preventivos trazem projetos e produtos que farão de 2017 um ano sem bullying. A Abrace Programas Preventivos e o Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (SINEP/MG) uniram-se pelo fim do problema.

Apostando em empatia e educação, por meio de projetos pedagógicos bem estruturados, as instituições assumem a frente na batalha contra o bullying e zelam por crianças e adolescentes, pois acreditam que eles são parte essencial do futuro.

Como resultado dessa parceria, as organizações estão lançando o livro “Bullying,

Ética e Direitos Humanos”, na Região Sudeste. A obra escrita pelo filósofo, pedagogo, especialista em Filosofia e Direitos Humanos e Diretor da Abrace, Benjamim Horta, e pelo advogado curitibano Euclides Vargas – tem como objetivo trazer essa forma de violência e as maneiras de combate-la ao centro de discussões entre alunos do Ensino Médio.

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Benjamim Horta, a convite do presidente da FENEN-MG, professor Emiro Barbini, apresenta à Diretoria da CONFENEN, em Brasília, o livro “Bullying, Ética e Direitos Humanos”.

O lançamento oficinal do livro em Minas Gerais acontecerá no dia 7 de abril de 2017, na cidade de Caéte, durante o Encontro Mineiro de Educação. Para fortalecer a luta contra esse sério problema, os parceiros SINEP/MG e Abrace unem seus recursos e contam com alicerces bastante sólidos: além do livro “Bullying, Ética e Direitos Humanos”, dispõem da ajuda do aplicativo Escola Sem Bullying, já disponível para IOS e Android.

Fonte: Tributa Cidade Nova

out 3 Suicídios de meninas de 17 e 13 anos reacendem debate sobre bullying em escolas na França

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Émilie, de 17 anos, se matou em janeiro. Marion tinha 13 anos quando tirou a própria vida em 2013. Ambas cometeram suicídio depois de terem sido vítimas de bullying na escola.

A morte prematura e trágica das duas adolescentes desencadeou um debate sobre a melhor forma de proteger jovens e, ao mesmo tempo, ensiná-los a respeitar uns aos outros. O drama de ambas também foi exposto pela imprensa francesa.

O sofrimento de Émilie tornou-se público quando um jornal francês reproduziu trechos do diário da adolescente divulgados pelos pais dela.

Em seguida, uma rede de televisão exibiu o filme Marion, para sempre 13 – uma dramatização da vida de Marion Fraisse, que morreu há três anos.

Morte de Marion Fraisse inspirou filme e campanha contra assédio em escolas na França

O filme de 90 minutos mostra como seu sofrimento foi crescendo gradualmente, de forma imperceptível para quase todos ao seu redor. Numa sala cheia de alunos, Marion fica marcada como uma das garotas boazinhas. Aos poucos, vai perdendo amigas, e passa a ser vítima de rumores, insultos e isolamento.

Um certa ocasião, Marion é abordada no corredor da escola por um grupo de garotos, que a agarram, reviram e jogam longe seus sapatos. “Ela estava pedindo para isso acontecer”, diz uma garota que testemunhou tal cena.

Após esse episódio, Marion fica abalada e chora. A partir desse momento, o filme mostra como ela entra em desespero, se rende à depressão e, finalmente, toma a decisão radical de acabar com a própria vida.

Filhos, esses desconhecidos
O filme exibido na televisão francesa foi adaptado do livro escrito pela mãe de Marion, Nora Fraisse. Depois de encontrar uma carta da filha, Nora decidiu publicar a história da adolescente.

O ato pode ser considerado comovente, porque um dos elementos mais marcantes dessa história é a forma como os pais de Marion narram saber o que estava acontecendo com sua filha.

Entrevistada por um jornal francês para divulgar o lançamento da dramatização, a atriz Julie Gayet, que interpreta Nora, disse que o filme traz dois pontos de vista: Marion e sua mãe.

Segundo a atriz, o roteiro “mostra que os pais nunca conhecem realmente os filhos”. “Metade da vida de uma criança lhes escapa”, observou Gayet.

Mais de quatro milhões de pessoas sintonizaram no canal de televisão para assistir ao drama, cuja exibição que foi sucedida por um debate de uma hora. Muitos levaram a discussão para as redes sociais, onde compartilharam suas histórias e expressaram suas opiniões.

“Não é suicídio, é assassinato”, escreveu uma usuária do Twitter que se identificou como Sara. Outro sugeriu que o filme fosse exibido em escolas. Muita gente descreveu suas próprias experiências com bullying, narrando que o trauma os perseguiu por anos mesmo já tendo saído da escola.

Filme sobre Marion fez com que muita gente comentasse suas próprias experências em redes sociais; Alexandra Pain escreveu dizendo que todo mundo sabe como é o bullying em escolas

“Querido diário”
Quando Émilie morreu, ela era quatro anos mais velha que Marion.

Considerada uma aluna brilhante, estudava em uma escola particular na cidade francesa de Lille quando começou o assédio.

Os pais dela narram que desde os 13 anos Émilie era discriminada pelos colegas: não era considerada descolada o suficiente, não acompanhava o que estava na moda e era uma leitora voraz. Um dia, atingiu seu limite e abandonou a escola.

Durante três anos, em que tentou outros colégios e até ensino à distância, Émilie desenvolveu uma fobia de escolas.

Os pais acreditam que sua morte esteja ligada à depressão como resultado de anos de bullying. Parte de seu calvário foi registrado num diário, no qual ela relata algumas das dificuldades de seu dia-a-dia:

Émilie se matou aos 17 e trechos de seu drama pessoal, registrados num diário, foram divulgados na semana passada

Esquivando-me de golpes, rasteiras e cuspes. Fechando os ouvidos para insultos e zombaria. Mantendo um olho na bolsa e no cabelo. Segurando as lágrimas. De novo e de novo.

– Ei, sabe o quê?, um menino exclamou alto o suficiente para todos ouvirem na classe menos o professor. Aparentemente, eles vão premiar os CDFs mais feios de todos os países. – Ah é?, reagem os colegas dando risadinhas. Aposto que temos o vencedor na classe.

Eu não quero que os meus pais saibam o quão patética eu sou; e acho que eles deram à luz a um pedaço de lixo.

Combatendo o bullying
Estatísticas oficiais indicam que cerca de 700 estudantes sofrem com bullying todo ano na França, país que tenta conscientizar os alunos sobre as consequências do bullying e, ao mesmo tempo, oferecer apoio para as vítimas.

Em 2014, uma nova lei antibullying foi aprovada. Também foi criada uma linha telefônica para receber informações sobre incidentes envolvendo alunos. Mesmo assim, ativistas que lutam contra o assédio nas escolas afirmam que a França não enfrenta o problema de forma adequada.

“A resposta das autoridades está melhorando muito lentamente”, diz a psicóloga e ativista Catherine Verdier. “Mas comparada a outros países, a França está se arrastando. Se você olhar para a Finlândia, a Suécia, onde o bullying é uma causa nacional, nesses países houve um verdadeiro esforço vindo de cima para mudar as coisas.”

Willy Pierre, que dirige uma entidade chamada “Vocês São Heróis”, criada após a morte de Marion para quebrar o tabu em torno bullying diz que “algumas escolas melhoraram” na França, “mas não o suficiente”.

“A linha direta funciona apenas em horário escolar e agendar uma conversa entre a criança e um adulto pode levar semanas ou meses”, afirma Pierre.

Ativistas pressionam para que as autoridades combatam também o cyberbullying – o assédio pela internet – que ocorre do lado de fora dos portões da escola. Pierre diz que a solução só virá quando pais, professores e alunos discutirem o problema abertamente.

Um relatório da Unicef publicado há dois anos idetifica o bullying como um problema mundial que “existe em algum nível e de alguma forma em todos os países”.

As crianças que são maltratadas, diz a Unicef, são propensas a uma vasta gama de efeitos negativos, incluindo “depressão, ansiedade, pensamentos suicidas”.

Fonte: G1 – Globo
Foto: La Voix du Nord

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